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Uma relação - incomoda - entre passado/presente, entre imagem/real,
entre significado/significante, é estabelecida na pintura
de Carlos No, na continuidade de pesquisas anteriores. Incómoda
porque actual e muito próxima das vivências individuais: às
imagens dos livros educativos sobrepõem-se outras mais violentas
e mais reais, divulgadas quotidianamente pelos media. As consoantes
e as palavras comuns, como Mãe, ganham significados tão diversos
consoante as imagens que as ilustram. Todas preenchem o vasto
espaço do imaginário infantil, ávido e não selectivo.
Esta não é uma pintura infantil. Nem pretende sê-lo. Toda
a construção pictórica requer uma associação de ideias apenas
possível quando se dispõe da informação certa. Uma leitura
imediata revela relações simples, por exemplo, o verbo Bater
implícito na letra B e ilustrado pela imagem do sapateiro
a martelar. Simples, directo, sem levantar questões. Essas
surgem em anexo, em tela separada, filtradas em negativo,
como se a pintura pertencesse a um outro plano, afastado no
tempo e no espaço.
Poderíamos estabelecer uma ligação entre as três telas: cor
- imagem - realidade, desconstruir os três pressupostos sem
que o conteúdo sofresse alteração. As mães são iguais em todo
o mundo, as realidades não, as condições menos ainda. As igrejas
são sempre lugar de culto, as religiões variam, os radicalismos
surgem. Todas estas analogias são mais ou menos evidentes
conforme a vontade de ver de cada um.
A pintura de Carlos No não pretende ser moralista. Mostra
apenas, ganhando um carácter jornalístico de reportagem. A
unidade do conjunto é assegurada pelo desenho e pela cor.
A utilização da estrutura do tríptico sacraliza os conteúdos,
numa adaptação das disposições medievais e renascentistas.
Sandra Brás dos Santos
Abril 1994
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